quarta-feira, 8 de junho de 2011

Comunidades de pescadores e rendeiras do litoral cearense organizam-se para fazer do turismo uma atividade complementar, geradora de benefícios

Eduardo Geraque Francisco José do Nascimento, mais conhecido como Dragão do Mar, não está mais pessoalmente manejando sua jangada, na praia de Canoa Quebrada, no litoral cearense. Na verdade, esse líder da comunidade dos pescadores viveu na segunda metade do século 19, quando o fim da escravidão ainda não era uma realidade absoluta no Brasil. O estado do Ceará, dizem os historiadores, antecipou a liberação dos negros quatro anos antes do resto do país. E contribuíram muito para esse fato também as greves de barqueiros lideradas por Dragão.

O que pode ser uma história já distante, pelo menos em termos da existência de um espírito de resistência no ar, continua mais atual do que nunca. Algumas comunidades de pescadores e de rendeiras do litoral cearense – aquele que, ao contrário de quase todo o resto do Brasil, corre de leste para oeste, ou do sol nascente para o poente – se organizaram nos últimos anos para construir algo que está sendo chamado de turismo comunitário ou cooperativo. “São os próprios moradores, sem a participação de nenhum tipo de empresa, que administram as pousadas, os restaurantes e as barracas de praia. É tudo feito a partir de uma cooperativa”, explica Lindomar Fernandes de Lima, presidente da cooperativa, pescador e artesão da Prainha do Canto Verde, localizada a 120 quilômetros da capital, Fortaleza, no sentido leste.

A resistência que tenta ser feita no Canto Verde não é apenas contra os grandes investidores da indústria do turismo, que no caso do Nordeste brasileiro estão vindo principalmente da Península Ibérica. “Nós temos um problema agrário também”, explica Lima. Na versão da comunidade, o pescador Raimundo Canto Verde teria chegado àquelas terras à beira-mar na década de 1850. Em 1858 existem registros de que uma pequena escola foi criada na região. O sobrenome do pescador é que acabou dando nome ao lugar. E, hoje, a maioria dos moradores acredita ser descendente de Canto Verde. “Mas nos anos 1970 as terras da comunidade foram griladas. O objetivo era fazer um grande loteamento na região”, explica o presidente da cooperativa dos pescadores. Passados mais de 30 anos, os dois lados ainda brigam na Justiça. O processo está no Supremo Tribunal Federal e deve ser decidido, ainda, até o fim do ano. “A decisão deverá ser a nosso favor”, acredita Lima.

Enquanto o papel que dá posse definitiva à terra não vem, uma das formas de conseguir manter o sustento da comunidade acabou sendo o turismo. A Prainha do Canto Verde tem hoje 78 leitos. “Em 2004, fechamos o ano com uma renda de R$ 128 mil”, revela o artesão. “Faço peças com palha de coqueiro e com todos os outros subsídios do coco”, explica. Enquanto as próprias famílias que lidam direto com o turista ficam com a renda gerada pelas pousadas e restaurantes, o restante é distribuído pela comunidade. “Parte desses recursos é investida, por exemplo, na escola”, diz o pescador.

No Canto Verde, além de viver o dia-a-dia da comunidade, o visitante pode observar as manifestações culturais locais, navegar nas jangadas para observar a pesca da lagosta, a principal atividade do local, fazer trilhas ecológicas ou ainda visitar as lagoas da região. “As mulheres são todas rendeiras, mas essa atividade está muito complicada no momento”, diz Lima, iniciando um outro assunto.

Viver como rendeira autêntica nem sempre é fácil para as mulheres dos pescadores. Esse fenômeno não é exclusivo do Canto Verde. Por causa da grande industrialização desse tipo de artesanato – e da sempre complicada missão, aos olhos de um leigo, de separar produtos de qualidade daqueles que não são –, as rendas feitas realmente à mão, durante meses, no caso de uma grande toalha, por exemplo, acabam saindo muito caras. O destino único desse tipo de artesanato, considerado o mais importante do estado por muitos, é a exportação. “A produção aqui na Prainha da renda labirinto é muito pequena. Não vale a pena vender aqui mesmo. As nossas rendeiras conseguem fazer, no máximo, de 15 a 20 peças por ano. São feitas principalmente toalhas e camisas. Algumas peças demoram até seis meses para ficar prontas. E todos esses produtos são vendidos hoje na Itália. Temos muitas encomendas de lá”, informa Lima.

Se a renda das rendas e do próprio turismo ainda sustenta as comunidades do litoral leste do Ceará, a pesca propriamente dita, principalmente a da lagosta, é motivo de preocupação. E, mais uma vez, parte das causas desse problema é externa, e quase todas elas têm menos a ver com a natureza e mais com a interferência humana no sistema. “Aqui na Prainha a pesca é feita apenas com barcos à vela, o que já é um sofrimento. Nos últimos cinco anos a produção tem caído bastante por causa da pesca predatória e dos grandes barcos que vêm do Rio Grande do Norte e aqui mesmo do Ceará”, explica Lima, também experiente pescador. Se antes, durante a pesca da lagosta que começa em março, a produção começava em alta e depois diminuía, mas de certa forma continuava existindo até o fim do período anterior ao defeso, que vai de 1o de janeiro a 31 de abril, hoje a constatação feita pelos pescadores do Canto Verde mostra que a situação é bem diferente. Segundo o presidente da cooperativa da Prainha do Canto Verde, “a produção agora, praticamente, se restringe ao mês de março. Além de muitos barcos pescarem também dentro do período proibido, eles, durante o ano todo, estão pescando as lagostas muito miúdas.”

O quadro revelado quando o barco volta para casa, também em relação aos peixes, não é muito diferente, segundo Lima, da realidade da lagosta. Naquela parte do litoral do Brasil é freqüente a pesca de espécies com bom valor econômico, como cavala, serra, garoupa, cioba e pargo. Mas a produção no alto-mar já foi melhor. “Mesmo com tudo isso, a pesca ainda é a nossa principal fonte de renda. O turismo, espero, nunca vai chegar a ser. Muitas vezes essa é uma onda que vem e passa”, afirma Lima. Os quase 900 visitantes, muitos deles estrangeiros, que desde o ano 2000 passam todos os anos pelo Canto Verde, ainda não foram suficientes para criar ilusão na mente dos caiçaras. “Claro que, se nós conseguirmos manter nossa cultura e fazer um turismo sólido, isso pode ser algo mais duradouro. Mas essa atividade será sempre auxiliar e não a principal”, avisa Lima, “do alto” de seus 30 anos.

“A idéia é basicamente essa. Ajudar os pescadores, já organizados em comunidades, e por meio de um planejamento estratégico, a obter fontes de renda complementares, mas não alternativas”, explica Jefferson Souza da Silva, técnico do Instituto Terramar, uma organização não-governamental com sede em Fortaleza, que dá apoio logístico aos pescadores. “Eles têm a pesca, a agricultura. É importante que essas duas atividades sejam também cada vez mais fortes e saudáveis.”

De acordo com Lima, no Canto Verde tudo é feito exclusivamente pela própria comunidade. A cooperativa, hoje com 67 pessoas, costuma todos os anos fazer doações não apenas para a escola local, que hoje tem até uma brinquedoteca, mas também para outras instituições. “São doações que variam de R$ 4 mil a R$ 5 mil em um ano, por exemplo”, conta Silva. “Eles até já compraram um carro para a própria cooperativa.”

A premiada experiência da Prainha do Canto Verde, e até o reconhecimento internacional que a cooperativa cearense tem, começam a ser uma referência na região. Os pescadores estão se tornando até uma espécie de consultores locais para outras praias que estão passando pelo mesmo problema. Ou seja, que precisam obter fontes de renda complementares para que o direito à subsistência e à terra sejam mantidos da melhor forma possível. É por isso que tanto o Instituto Terramar como a própria cooperativa têm orgulho de dizer o nome de algumas outras regiões onde a experiência também está sendo tentada. Em alguns casos, além do próprio turismo baseado no binômio pesca-renda, novas atividades, como uma fábrica de tijolo ecológico, estão sendo fomentadas pelos técnicos.

“Já estamos ajudando o pessoal da região de Camocim, na Praia de Tatajuba (localizada 36 km a oeste da famosa Jericoacoara), e de Ponta Grossa, no município de Capuí (praia que fica na divisa com o Rio Grande do Norte)”, explica Lima. “Em todo o litoral do Ceará estão ocorrendo esses problemas de ocupação imobiliária. Nós precisamos, de alguma forma, nos organizar”, explica o pescador. Ao que parece, o velho espírito do Dragão do Mar, em sua jangada, continua rondando o litoral cearense.

Um comentário:

  1. Este texto talvez tenha sido um dos mais interessantes que coletei, visto que ele une a pesca ao turismo. Na minha proposta pretendo também criar oficinas de artesanato, para estimular a produção de artesanato com matéria prima local.

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